quinta-feira, 1 de julho de 2010

Pink Floyd - Meddle



Depois de um esforço hercúleo, consegui chegar a um texto aceitável e consistente o suficiente para descrever (com os merecidos elogios, claro) o sexto disco da banda britânica de rock progressivo (leia-se ex-psicodélico, pois as coisas evoluíram desde 1967 em The Piper at the Gates of Dawn). Devo, antes de mais nada, acrescentar que este está entre os meus trabalhos favoritos do grupo, e indubitavelmente no topo da minha lista de melhores discos da história da minha vidinha medíocre de blogueiro. Assim, exageros cometidos e adjetivos no superlativo dominarão esta postagem. Perdoem.

Pois bem, deixando um pouco de lado o contexto histórico da época de produção do álbum (acho desnecessário entupir os leitores não-tão-fãs com um material biográfico), podemos apenas dizer que o disco aqui postado (Meddle, 1971) é um divisor de águas entre o início de carreira do Floyd e a era moderna da banda, agora com identidade claramente progressiva. Mas o que diabos isto quer dizer? Significa, em panos limpos, que aquela sinfonia assustadora de Atom Heart Mother (o álbum anterior, de 1970 - por favor ouçam!) agora dá lugar a um universo diferente, preenchido por uma brisa melódica que levemente penetra em nossos ouvidos e nos acolhe com a temperatura de um dia chuvoso, enquanto os sons vão se adensando, mergulhando-nos num amplo oceano. A primeira faixa, One of These days, é o prólogo para compreender melhor esta evolução (e a minha definição metafísica de rock progressivo). As notas graves do contra-baixo são aos poucos acompanhadas por acordes de teclado, assim a música começa a ganhar proporção à medida que o fade-in vai deixando a guitarra do David Gilmour apresentar-se. Ao fundo, palhetadas alternadas ecoam até que enfim, entra a bateria. A pequena introdução instrumental continua até o clímax (Gilmour e seus bends) e encerra-se dando espaço à segunda faixa.

A Pillow of Winds (Um Travesseiro de Ventos) entra em cena proferindo: "A cloud of eiderdown draws around me; Softening the sound" (Uma nuvem de penas desce ao meu redor; Suavizando o som), acompanhado de um violão acústico dedilhando acordes menores e um teclado (me corrijam se eu estiver errado) que desliza meia dúzia de notas algumas oitavas acima. A canção é de tamanha leveza que dá pra simplesmente fechar os olhos e imaginar-se deitado num campo de trigo.

Após os cinco minutos e dez segundos de A Pillow of Winds, ouvimos Fearless. A música já inicia-se com uma palhetada generosa do David Gilmour que atinge em simultâneo todas as cordas da guitarra, estendendo o tapete vermelho para a bateria e o violão acústico , este último tocado por Roger Waters. Um riff (que tem um fraseado ascendente) aparece precedendo o vocal, perdurando com variações durante toda a música, marcando a transição de um acorde para outro (alguns destes são tocados com notas harmônicas). A faixa começa e encerra-se mixada com a gravação de um coro cantando "You'll Never Walk Alone", do musical Carousel - curiosidade é que essa música virou hino do Liverpool F.C.

San Troopez é a quarta faixa do álbum. Ouvindo-a identificamos claramente a essência jazzística em suas linhas de tempo, em virtude da marcação feita na bateria. As frases de piano são expressadas pelo músico Richard Wright, o violão acústico é novamente do Waters e o Gilmour aparece arrancando solos de sua guitarra com um slide (aquela espécie de dedal que facilita o deslize dos dedos sobre as cordas do instrumento). De longe, é a música que tem a batida mais acelerada do disco. Por fim (considerando que todas as faixas anteriores a Echoes fazem parte do lado A do disco, como era originalmente no LP), chegamos a Seamus, a composição mais inquieta, original e excêntrica de Meddle. O nome desse blues deve-se ao cão que uiva durante as gravações (sim, isso mesmo!), uma espécie de experimentalismo esquisito que acabou dando certo e rendendo lugar no longa Live at Pompeii, gravado pela banda após o lançamento deste disco. A letra, pra lá de genérica, descreve uma curta cena sobre um cachorro. Genial.



E assim, percorremos todo o disco até chegarmos a Echoes, o motivo pelo qual escolhi este álbum para análise. Em seus 23 minutos e 31 segundos de efeitos sonoros, microfonias, imrpovisações e longas passagens instrumentais somos literalmente transportados através de galáxias inteiras. Eu costumo comparar esta faixa com um profundo e denso oceano (lembra do meu ensaio no início da postagem?), onde o papel da composição musical (em suas passagens bem distintas) age como um feixe de luz que vai penetrando nas águas esverdeadas desse universo misterioso. A música tem início com um "ping" repetitivo, obtido através da reflexão da frequência de uma tecla do piano do Wright amplificada e retransmitida através de um alto-falante Leslie. Em seguida, entra David Gilmour com um solo introdutório que perdura até os 3 minutos, quando então os vocais aparecem fazendo dueto (Gilmour e Wright. A letra é belíssima, sem exageros, juro. A harmonia neste trecho usa basicamente os acordes sustenidos menores de Dó, Sol e Fá. Ao final dos vocais, entra em cena novamente a genialidade de David Gilmour em seus solos - com bend à vontade - evoluindo e estendendo-se até o terceiro estágio da música (por volta dos 7 minutos). Daí então, a bateria muda a marcação e o teclado do Wright aparece complementando com acordes, numa ritmia similar à do funk. Essa improvisação continua até o previsível fade-out, nos jogando lentamente até outro momento de silêncio, que aos poucos começa a ser povoado por manifestações sonoras sombrias: é como se minúsculos organismos bioluminescentes começassem a clarear uma caverna escura e fria. Vale a pena frisar o eco assustador semelhante a um grito de baleia, produzido através da inversão dos cabos no pedal wah-wah da guitarra (obrigado, Google!). Esse trecho foi curiosamente utilizado num episódio do Chaves, intitulado "o caçador de lagartixas":



Gradativamente a música volta ao ponto de partida, finalizando o último ato cantado com uma estrutura idêntica àquele trecho entre 3:00 e 5:00. Um duelo instrumental entre David Gilmour e o Richard Wright é majestosamente encerrado pelo silêncio característico de Echoes, com seus já familiarizados efeitos sonoros que nos lembram criaturas alienígenas.

Existem rumores de que a música Echoes faz claras referências ao filme "2001: Uma Odisséia no Espaço", dirigido em 1968 pelo cineasta Stanley Kubrick. Apesar da banda negar qualquer ligação intencional com o longa-metragem, a sincronização feita abaixo mostra que o diálogo entre ambos é válido, sobretudo na cena da viagem a Júpiter:





Meddle é um álbum complexo, instintivo e subjetivo que deve ser apreciado com todos os sentidos. O trabalho imprimiu uma marca permanente na história do rock e nas gerações que o acompanharam. Não deixa, contudo, de carregar uma certa dose de psicodelia, ainda que eu insista afirmar que é um divisor de águas entre as duas fases do Pink Floyd. No mais, uma obra indefinível à primeira vista - afinal, quem entendeu mesmo que aquilo na capa é o close de uma orelha?

Apreciem!

Download

Álbum: Meddle
Artista: Pink Floyd
Ano: 1971
Gênero: Rock Progressivo
Tamanho: 45MB




Tracklist

01. One Of These Days
02. A Pillow Of Winds
03. Fearless
04. San Tropez
05. Seamus
06. Echoes

3 comentários:

  1. Perfeito!
    Fico feliz de ter como amigo um dos melhores escritores e agora crítico que conheço!

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  2. perfeita essa análise, ta de parabens, echoes é a melhor música de todos os tempos

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  3. perfeita essa análise, ta de parabens, echoes é a melhor música de todos os tempos [2] parabens mesmo, eu sou muito fão desta incrivel banda e mais ainda deste incrivel album, um abraço e saldações floydanas!



    hannoverxp.

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